musicm3c

Música de código aberto — um argumento em construção

Uma gravação é um binário. Ninguém nunca distribuiu o código-fonte.

m3c é m + usi + c — music (música, em inglês), abreviada do mesmo jeito que i18n abrevia internationalization. A piada é o ponto. É uma abreviação de programador, usada de propósito, porque a iniciativa inteira é um argumento de que música e software são parentes mais próximos do que qualquer um dos dois campos admite.

01A janela

A maioria das pessoas que adorariam tocar música nunca descobre isso

Não por falta de talento. É que, no único momento em que poderiam ter começado, não havia nada ali para começar. Nenhum instrumento ao alcance. Ninguém por perto que pudesse mostrar o primeiro passo. A janela se abre, não há nada nela, e ela se fecha.

Quase todo músico sabe dizer qual foi o acaso que o deixou entrar — um instrumento que por acaso estava em casa, um amigo que sabia três acordes e topava ensinar. Esse acaso faz um trabalho enorme, e é distribuído quase inteiramente pela sorte.

A ideia é fabricar esse acaso em grande escala e oferecê-lo de graça.

A missão

As ferramentas são a metade fácil desse problema — cabem num navegador e não custam nada para rodar. A metade difícil é que a própria música está trancada, e trancada de um jeito que o movimento open source resolveu para o código há quarenta anos e nunca resolveu para o som.

02A tese

Um MP3 estéreo CC-BY-SA é um binário GPL sem código-fonte

Música e código são obras criativas enormemente complexas que se compilam em algo que você pode experimentar, mas não consegue desmontar com facilidade. Você pode rodar um binário sem ler o código-fonte. Pode ouvir um disco sem saber o que foi tocado. Nos dois casos o artefato pode ser imitado — de perto, às vezes de forma indistinguível — e em nenhum dos dois ele pode ser recuperado com perfeição.

Não é uma metáfora solta. É o mesmo problema, com a mesma forma. E a Open Source Definition tem uma cláusula sem equivalente em lugar nenhum da música:

O código-fonte deve ser a forma preferida na qual um programador modificaria o programa. Código-fonte deliberadamente ofuscado não é permitido. Formas intermediárias, como a saída de um pré-processador ou tradutor, não são permitidas.

The Open Source Definition, cláusula 2

Aberto na lei. Fechado na prática.

Você pode redistribuir esse MP3, remixá-lo, construir em cima dele. Mas continua sem poder abri-lo, porque as partes nunca foram publicadas.

Quase tudo o que foi catalogado como "música open source" nos últimos vinte anos foi aberto no sentido do Creative Commons e fechado no sentido da OSD. Esse descompasso é um motivo real para o movimento nunca ter crescido como o software open source cresceu. Um código compartilhado melhora cada vez que alguém o lê. Um MP3 compartilhado só é copiado.

03Forma-fonte

O alvo é a produção, não a composição

A partitura já está resolvida. O que nunca foi publicado é aquilo que um músico de fato pegaria para mudar a obra: a sessão, os stems, os takes.

No software
Na música
O binário

Roda. Não dá para editar de forma útil.

A mixagem estéreo

Toca. Não dá para desmontar.

A árvore de código-fonte

Cada arquivo, na forma em que o autor o edita.

A sessão

Cada stem, take e ajuste, do jeito que foi gravado.

Histórico de commits

Como chegou até ali, e cada estado anterior.

Os takes

Hoje são apagados. Nada os preserva.

04A sequência

Controle de versão primeiro. Abertura depois.

Abrir o código não significa nada enquanto não houver um código-fonte para abrir. Então a ordem é proposital: construir aquilo que guarda cada take e cada versão — abstraído a ponto de ficar invisível — e só então "publicar o código-fonte" passa a significar alguma coisa.

Há um segundo presente escondido nessa ordem. Um ecossistema inteiro e maduro para construir coisas juntos — com histórico, contribuição em paralelo e propriedade permanente — existe há décadas, é gratuito e é usado quase exclusivamente por desenvolvedores de software. Os músicos têm exatamente o mesmo problema e nenhuma das ferramentas.

Um músico que passou um mês feliz restaurando versões antigas de uma música já entende controle de versão — só não sabe que isso tem nome. O mesmo primeiro salto. Outro instrumento.

A missão
05O calendário

O bem comum tem um calendário, e ele anda todo mês de janeiro

Digamos que o objetivo seja alguém aprender a tocar com os discos que deram início à música popular americana. Pela lei dos EUA, e pela regra que este projeto segue — só prazo de direito autoral expirado, nunca um argumento de uso justo (fair use) —, a maior parte dessa música ainda não está disponível.

Duas camadas independentes precisam estar livres: a gravação e a composição. Em 2026, as gravações publicadas pela primeira vez até 1925 estão em domínio público, e mais um ano é liberado a cada 1º de janeiro.

1923 Os primeiros discos comerciais de country já liberado
1925 Os primeiros discos do Hot Five de Louis Armstrong já liberado
2027 Os Red Hot Peppers de Jelly Roll Morton, gravados em 1926 1 ano
2028 As Bristol Sessions: a Carter Family e Jimmie Rodgers, 1927 2 anos
2041 Dust Bowl Ballads, de Woody Guthrie, 1940 15 anos
2047 Tudo o que foi gravado até 1946. Depois, a espera se estende para 110 anos. 21 anos

Livre para transcrever hoje Prazo ainda em vigor

Isso não é uma decepção. É o cronograma, e é o argumento para construir agora. Cada um desses anos vai chegar, esteja alguém pronto ou não. A questão é se, na manhã em que as Bristol Sessions entrarem em domínio público, haverá um formato aberto, um acervo aberto e ferramentas gratuitas esperando por elas — ou se os primeiros a chegar ao material serão os que podem pagar para licenciá-lo.

Também já há muita coisa aberta. Um século de música gravada está liberado, e quase nada disso foi transcrito numa forma com a qual um aprendiz possa praticar. A página Iniciativas mostra onde esse material está e as regras para usá-lo.